texto teclando som-texto
para ouvir enquanto lê ou para ler enquanto ouve
Tanto trapo de pano espalhado por todo lado que eu esperava usar para alguma coisa. Não usei. Sabe, essa é a questão de morar sozinha, você compra uma caralhada de objetos para preencher o vazio do espaço da sua casa e se percebe com coisa demais para guardar e pouco guarda roupa. Comprei pela internet duas estantes que devem chegar a qualquer momento, mas nada por enquanto. Isso não te incomoda também? Esse acúmulo de coisas que não tem fim, essa necessidade de guardar tudo e de ter tudo, só para caso algum dia você precise? Não me incomoda tanto, mas você sabe, incomoda alguém. Eu fico pensando que alguém vai entrar e se incomodar e eu vou me incomodar com esse incômodo.
Você deve achar tudo isso uma bobagem sem fim, eu aqui falando de como tenho coisas que não cabem em lugar nenhum e você deve achar chato. Você diz que não se incomoda com a minha falação, mas eu sei a verdade, eu sei que você se incomoda. No fundo você fica esperando o momento perfeito pra sair daqui, fugir de mim. Talvez até pense em se jogar pela janela, por isso eu sempre deixo ela fechada. Aposto que isso você nunca tinha pensado, não é?
Eu te prendo aqui e você nem percebe. Eu te dou tudo que você precisa para que você fique aqui e você nem percebe como eu estou sendo manipuladora. Eu me sinto a pior pessoa do mundo, cheia de coisas que eu não vou usar e sem espaço para guardar tudo com carinho. De que adianta ter tantas coisas bonitas se eu não posso cuidar de todas elas com o cuidado que cada uma merece? Parece uma fraude minha comigo mesma. Eu me sinto a pior pessoa do mundo, mas eu não sou.
Difícil reconhecer isso, você não acha? Difícil falar que eu não sou tão ruim assim. Difícil aceitar que talvez todo esse sentimento que eu tenho não tem validade nenhuma e que eu não preciso de tanta culpa apenas por ter feito o que eu acredito que é certo. Eu pude e quis comprar essas coisas, então por que me sentir mal? Por que não comprar? Por que não?
São tantas pessoas que estão ao meu redor me dizendo o tempo inteiro como eu sou uma boa pessoa que fica até chato eu continuar discordando. Se eu não fosse boa, não teria tantas pessoas boas ao meu redor. Eu não sou uma fraude, porque todo mundo que eu conheço tem a intuição bem afinada e eles falam como gostam de estar perto de mim. Essa gastança sem sentido não me faz uma pessoa menos boa, só uma pessoa mais pessoa. Uma pessoa com vícios. Vícios em comprar coisas que eu não preciso. Ao mesmo tempo, eu sempre tenho tudo que preciso quando preciso de alguma coisa.
Que inferno, eu não queria ser assim. Eu não queria precisar falar e só eu e você sabemos quanto eu preciso. E você não fala nada! Você fica em silêncio o tempo inteiro. Você me observa e não fala, você é um lembrete de que eu preciso saber calar a minha boca, mas eu sou escritora! É o caralho mesmo, eu sou escritora e as palavras saem de mim com bastante facilidade e eu preciso manter elas saindo para me manter escrevendo, escrevendo qualquer coisa. Faz tempo que eu não escrevo nada e isso é um outro inferno. Você sabe que isso é mentira, já que leu as coisas que eu escrevi por último, mas ainda assim sabemos que eu não tenho escrito nada.
Eu queria que você me contasse tudo que acontece no seu dia, eu queria a sua companhia vinte e quatro horas por dia, eu sinto tanto a sua falta quando você não está aqui e isso é um inferno também. Por que você não pode estar mais presente na minha vida assim como eu quero que você esteja? Por que você tem que ser essa pessoa distante que aparece apenas de vez em quando para me dizer uma ou duas coisas que eu gosto?
Por que você não pode morar mais perto de mim, para que possamos conversar e tomar café quando quisermos? Sabe, eu preciso de você tantas vezes no meu dia e você nunca está aqui. Fica aí, fica lá, fica em qualquer lugar que não aqui. E quando está aqui, está em silêncio e eu odeio o seu silêncio mais do que odeio a minha gastação de dinheiro
. E eu nem gasto tanto assim! Essa é a pior parte, eu compro poucas coisas inúteis, poderia comprar mais. Poderia ter mais coisas e não tenho porque eu fico me sentindo culpada em ter.
Igual eu fico me sentindo envergonhada de ocupar espaços com essas linhas desgraçadas. Tudo bem, eu admito: isso aqui não existe, é ficção. Podemos colocar agora bem claramente que é ficção. Eu tentei fazer ser verdade, mas não era. E agora estou contando: é mentira. Você não passa de um personagem e eu não passo de uma farsante que está apenas digitando freneticamente palavras para captar o som que as teclas fazem. Nada disso é real. Nada deste texto faz sentido e não existe nenhum propósito para existir ou para ser lido.
Bom jeito de terminar tudo. Assumindo que é tudo falso e que talvez nada valha a pena. E essa é a principal verdade, a verdade que talvez seja verdade, a verdade que talvez não seja mentira. A verdade de encerramento deste texto cansado.

